A cena é comum em empresas brasileiras: tudo funcionando, sem incidentes registrados, calendário de TI em dia, e a sensação confortável de que “aqui estamos seguros”. Não há fumaça, não há alarme, não há nenhum sinal visível de ameaça.
Até que um fato simples – quase banal – começa a incomodar. Um sistema que demora mais do que o usual para autenticar usuários. Um pico inesperado de tráfego externo às 3h da manhã. Um conjunto de máquinas que insiste em falhar na atualização.
Nenhum desses sinais, isoladamente, gera pânico. Mas juntos contam uma história que muitas empresas ignoram: o ataque não começa quando aparece. Ele começa muito antes – só não é percebido.
Casos recentes no Brasil mostram exatamente isso. Em uma média empresa do setor varejista, um comportamento anômalo nas credenciais do Active Directory foi registrado por semanas. Ninguém investigou. A rotina continuou, a operação seguiu, tudo parecia normal, até que um ransomware avançado se aproveitou justamente daquele ponto cego.
O tempo entre o primeiro acesso indevido e o estouro do ataque final? Horas. Não dias. Não semanas. Horas.
E o mais simbólico: tudo poderia ter sido identificado em uma Avaliação de Maturidade que chegou a ser orçada, mas foi postergada porque “não era prioridade naquele trimestre”.
Esse é o mundo real. Nada cinematográfico. Nada mirabolante. Apenas organizações que funcionam, até o dia em que deixam de funcionar.
Segurança não falha quando algo quebra. Ela falha quando ninguém está olhando para o que realmente importa.
Por que maturidade importa antes do ataque?
Segundo o IBM Cost of a Data Breach Report 2024, organizações com baixa maturidade levam, em média, 220 dias para identificar e 273 dias para conter um incidente – quase um ano de exposição silenciosa.
O mesmo relatório aponta que a ausência de práticas estruturadas de governança aumenta em 42% o custo total do incidente. No contexto brasileiro, segundo o State of Ransomware 2025 da Sophos, o valor mediano do pagamento de resgate caiu para cerca de US$ 1 milhão em 2025 (contra ~US$ 2 milhões em 2024), à medida que as empresas estão conseguindo negociar ou interromper ataques. No Brasil, por exemplo, a mediana do valor pago foi de US$ 400 mil, o que representa uma queda de ~52% em relação ao ano anterior.
A matemática é simples: a falta de maturidade multiplica a superfície de ataque e o impacto financeiro.
A questão não é tanto a surpresa do ataque, mas a falta de vigilância sistemática: invasores exploram ambientes que nunca foram realmente questionados. Quando processos, monitoramento e governança ficam em segundo plano, o risco cresce em silêncio – e a catástrofe deixa de ser acaso para virar consequência previsível.
Avaliação de maturidade: o RX completo antes da dor
Antes de olhar para cada componente individual, vale compreender o propósito maior da avaliação de maturidade: ela não é uma lista de testes, e sim um instrumento que revela o nível real de preparo da empresa frente às ameaças modernas.
É a diferença entre achar que está seguro e saber exatamente onde estão as brechas, o que precisa ser corrigido e quais riscos são inaceitáveis. A maturidade não nasce da tecnologia em si, mas da coerência entre processos, controles e decisões – e é essa coerência que a avaliação expõe com precisão.
1. Vulnerability Assessment (VA)
Antes de avançar para os componentes técnicos, é essencial entender que o VA é a primeira fotografia honesta do ambiente – ele revela o que está exposto sem que a empresa perceba. É o exame inicial que mostra onde a superfície de ataque cresce silenciosamente.
Identifica exposições: versões vulneráveis, portas abertas, falhas conhecidas.
2. Pentest
Simula técnicas reais de ataque, desde exercícios externos (black‑box) até testes com acesso prévio (white‑box), para provar caminhos de exploração: elevação de privilégios, movimento lateral, exfiltração de dados e persistência. O objetivo é demonstrar impacto concreto, priorizar correções e entregar artefatos acionáveis (IOCs, evidências e recomendações técnicas).
3. CIS Controls
Conjunto de 18 grupos de controles priorizados pelo Center for Internet Security (CIS) que organizam ações práticas, desde inventário de ativos até detecção e resposta.
Os primeiros seis grupos de controle (inventário e controle de hardware; inventário e controle de software; gerenciamento contínuo de vulnerabilidades; controle de privilégios administrativos; configuração segura de sistemas e manutenção/monitoramento de endpoints) atacam as causas-raiz das intrusões.
Quando corretamente aplicados, esses grupos de controles eliminam boa parte das janelas de ataque exploradas rotineiramente, reduzindo de forma expressiva a superfície de ataque.
O que as empresas descobrem, só que tarde demais
Quando abrimos a caixa preta das operações, as falhas seguem um padrão previsível, não por acaso, mas por negligência estrutural. Essas descobertas não são apenas “itens para consertar”; são sintomas de processos que funcionam por hábito, não por controle.
Principais fragilidades que aparecem durante uma avaliação de maturidade
- Contas órfãs e privilégios acumulados no Active Directory: ex-funcionários, serviços legados e scripts automatizados viram caminhos de entrada silenciosos. Resultado prático: movimentação lateral facilitada e falha no princípio do least privilege.
- Credenciais fracas ou reutilizadas (incluindo contas administrativas): o uso de senhas repetidas e ausência de políticas de rotação/MFA criam vetores instantâneos de comprometimento.
- Firewalls e controles de rede operando no modo “default”: regras genéricas, ausência de segmentação por aplicação e permissões largas para acesso remoto transformam a borda em vazamento.
- Backups sem isolamento ou testados inadequadamente: a recuperação demora, ou é impossível – e a empresa descobre que seus backups estavam tão expostos quanto o ambiente produtivo.
- Observabilidade insuficiente (logs, correlação e retenção): sem trilhas confiáveis, investigar e conter um incidente toma horas que viram dias; sem dados, não há lições.
- Ferramentas mal integradas ou não adotadas operacionalmente: compra ≠ implantação. Soluções deixadas em piloto criam um falso senso de segurança.
Por que isso importa?
Tempo de contenção aumenta: sem controles básicos e visibilidade, detectar e conter um ataque leva mais – e cada hora equivale a mais dados criptografados, mais evidências perdidas e mais custos de recuperação.
- Risco de lateral de movimento e escalonamento de privilégios: pequenas falhas se combinam e permitem que um invasor ganhe controle além do ponto inicial de entrada.
- Custo e reputação: indisponibilidade de serviços, multas por compliance e perda de confiança do cliente se acumulam mais rápido do que qualquer mitigação reativa.
Resumindo, o inventário das falhas que a avaliação revela não serve apenas para preencher um checklist, ele mostra onde a empresa provavelmente sofrerá o próximo impacto material. Ignorar essas descobertas significa transformar problemas gerenciáveis em crises que custam muito mais para remediar.
Do ponto cego à recuperação controlada
Para tornar o conceito mais tangível, apresentamos um caso fictício, porém plausível, que sintetiza os achados e ações descritos neste artigo.
Uma empresa de logística de porte médio com operações nacionais, integração com marketplaces e centros de distribuição em três estados. Por demanda de compliance e pressão da diretoria, a empresa contratou uma Avaliação de Maturidade com foco em CIS Controls, VA e Pentest.
Vamos estudar o caso:
Pensem no ambiente da empresa de logística como um prédio híbrido: parte física (servidores locais) e parte “na nuvem” (serviços externos). Os componentes principais eram:
- Active Directory (AD) local — a “lista de chaves” que controla quem pode entrar onde.
- Aplicações legadas expostas via reverse proxy — serviços antigos que ficam atrás de um “porteiro digital” para receber requisições da internet.
- Integrações com marketplaces — conexões com sistemas externos, que ampliam a superfície de ataque.
- MFA parcial (~40%) — autenticação multifator aplicada só em parte do time (nem todos precisam do segundo fator).
- Sem SIEM centralizado — não havia uma ferramenta única para correlacionar e analisar logs; era como ter sensores sem um painel que os leia.
- Sem política formal de hardening — não havia regras consistentes para “endurecer” (proteger) sistemas.
Achados críticos (o que o exame mostrou)
Aqui estão os problemas encontrados, explicados de forma objetiva:
- Serviço legado vulnerável exposto (CVE-2020-XXXX)
- O serviço estava acessível da internet por causa de uma regra de firewall permissiva.
- “Fingerprinting” (identificação da versão) mostrou que era uma versão antiga, com vulnerabilidade que permite execução remota de código — basicamente, um invasor poderia mandar o servidor executar comandos como se fosse ele próprio.
- Cobertura parcial de MFA (~40%)
- Somente 40% dos usuários críticos usavam autenticação multifator.
- Nos logs, havia tentativas de brute force (testar muitas senhas) que passaram despercebidas porque não existiam alertas configurados.
- Backup sem isolamento lógico
- Os backups estavam montados no mesmo domínio da produção via SMB (compartilhamento de arquivos), sem imutabilidade.
- Isso significa que um invasor que tivesse acesso poderia sobrescrever os backups — ou seja, os backups não serviriam pra recuperação segura.
- Credenciais persistentes em scripts e serviços
- Havia contas de serviço com privilégios altos, com senhas “embutidas” em scripts (texto claro) e sem rotação.
- Isso facilita a exploração automática: um script comprometido libera credenciais imediatamente.
Mitigações priorizadas (0–90 dias): o plano de ação técnico
O plano foi pensar em correções rápidas e eficazes, com prioridade em reduzir vetores de ataque:
- Patching + reconfiguração de exposição
- Aplicar o patch (correção) da vulnerabilidade no serviço legado.
- Remover o endpoint público (tirar da internet) e, se necessário, colocar um WAF (Web Application Firewall) que inspecione payloads maliciosos.
- MFA obrigatório + endurecimento do AD
- Estender MFA a todos os usuários com privilégios, depois para toda a organização.
- Revisar grupos administrativos do AD e remover privilégios desnecessários (princípio do least privilege).
- Backup imutável (WORM) e isolamento
- Migrar backups para repositório isolado com política WORM (Write Once Read Many) — não dá para sobrescrever ou apagar.
- Testar restaurações regularmente para validar integridade.
- Vault de credenciais + rotação automática
- Tirar senhas de scripts; guardar segredos em um cofre de credenciais (vault).
- Implementar rotação automática e contas separadas para serviços.
- Centralização de logs (SIEM) + correlação
- Enviar logs do AD, firewall, endpoints e aplicações para um SIEM.
- Criar regras de detecção: autenticações anômalas, tentativas de lateral movement e uso atípico de scripts.
Cadeia de ataque simulada (como um invasor exploraria o ambiente)
Vamos descrever a sequência de eventos como uma linha do tempo técnica: o que o invasor faz e como o time de defesa detecta e responde.
- Vetor de entrada (fase inicial)
- O invasor tem credenciais administrativas que vazaram em um data breach externo (ou comprou essas credenciais).
- Usa essas credenciais para tentar login no portal da LogiPort fora do horário comercial.
- Primeiro sucesso
- O login é bem-sucedido porque algumas contas não têm MFA e as senhas coincidem.
- Agora o atacante tem uma conta com algum nível de privilégio.
- Ponto de detecção (o SIEM dispara alertas)
- Com o SIEM ativo, a combinação de um login fora do padrão + acesso a um share administrativo gera correlação de eventos.
- O SIEM emite alertas críticos para o time de segurança (SOC) – isso reduz o tempo até a detecção.
- Tentativa de movimento lateral
- O atacante tenta explorar um script legado que contém credenciais em texto claro para se propagar a outros servidores (movimentação lateral).
- Se as contas de serviço tivessem sido rotacionadas e o princípio do least privilege aplicado, esse movimento teria sucesso limitado. No nosso cenário, as mitigações implementadas bloquearam ou restringiram esse movimento.
- Tentativa de persistência e escalonamento
- O invasor tenta criar contas ou alterar permissões para manter acesso persistente.
- Políticas de monitoramento do AD detectam criação de contas/alterações administrativas e disparam bloqueios automáticos ou investigações manuais.
- Proteção de dados (backup imutável)
- Mesmo se o invasor alcançasse recursos críticos, os backups estavam isolados em repositório WORM — não foram sobrescritos.
- Com isso, a restauração completa foi possível sem pagar resgate ou perder dados críticos.
Conclusão
- Pequenas falhas combinam-se: um CVE não corrigido + credenciais fracas + backups mal protegidos formam uma cadeia de ataque.
- Detectar cedo reduz dano: centralizar logs e correlacionar eventos (SIEM) diminui o MTTD (tempo até detectar).
- Prevenção e recuperação andam juntas: não adianta só prevenir; backups imutáveis e testes de restore garantem resiliência.
- Automatizar segredo e rotação salva tempo: vaults e rotação de credenciais evitam que scripts legados sejam um atalho para o atacante.
- Maturidade é disciplina contínua: aplicar controles prioritários (CIS 1–6, MFA, patching, SIEM, vault) e manter cadência de avaliações evita que pontos cegos se tornem incidentes.
Maturidade como escolha estratégica
A decisão de investir em avaliação de maturidade é, em essência, uma decisão estratégica. Vai além de tecnologia: é governança, priorização e responsabilidade pela continuidade do negócio.
Empresas que assumem essa responsabilidade convertem segurança em vantagem competitiva, seja pela redução de custos, seja pela confiança que oferecem a clientes e parceiros.
Se a sua organização ainda olha para segurança como custo pontual, o convite é reconsiderar essa conta: quanto custa não saber? A TDSIS oferece metodologias testadas para transformar avaliação em roteiro executável e mensurável. Se você quer transformar risco em previsibilidade, comece pela avaliação de maturidade.
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