Durante anos, a segurança da informação foi construída como um castelo: muros altos, fossos, torres de vigilância e uma única ponte de acesso, a senha. O problema é que, em pleno século XXI, essa ponte virou o elo mais frágil da defesa corporativa. Segundo o Verizon Data Breach Investigations Report 2024, 68% das violações de dados envolvem erro humano. Esse número é o retrato de uma era em que confiar apenas em senhas é o mesmo que trancar a porta da frente e deixar a janela escancarada.
A identidade digital surgiu justamente para redefinir esse paradigma. Ela não é apenas a soma de logins e senhas, é o conjunto de atributos, comportamentos e validações que provam quem somos no ambiente digital. E, nas empresas, ela se tornou a espinha dorsal da segurança moderna.
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Quando a identidade falha, tudo desmorona
Um exemplo emblemático é o ataque sofrido pela Colonial Pipeline em 2021. Uma única credencial VPN sem autenticação multifator (MFA) foi o suficiente para paralisar o fornecimento de combustível em boa parte da costa leste dos Estados Unidos. O prejuízo superou US$ 4,4 milhões pagos em resgate — e expôs algo mais profundo: a falha não estava em um firewall, mas na gestão de identidade.
Casos como esse não são exceção. Em 2024, a Microsoft revelou que credenciais roubadas continuam sendo o vetor de ataque mais usado em invasões corporativas, superando phishing e ransomware combinados. Mesmo no Brasil, incidentes semelhantes vêm se multiplicando. A Netshoes, por exemplo, teve casos amplamente noticiados de exposição de dados de clientes, primeiro entre 2017–2018 e, depois, novamente em 2024, com exploração de credenciais vazadas e reutilizadas . É o tipo de falha humana e processual que uma gestão moderna de identidade digital poderia mitigar.
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Da senha ao comportamento: a evolução da identidade digital
A gestão de identidade evoluiu de um simples processo de autenticação para uma camada inteligente e dinâmica de proteção. Hoje, empresas não apenas verificam quem acessa seus sistemas, mas também avaliam o contexto, o dispositivo, a localização e o comportamento de cada usuário.
Essa transformação é impulsionada por três pilares fundamentais:
- MFA (Autenticação Multifator)
A velha senha, sozinha, não basta. O MFA combina múltiplas formas de verificação, algo que você sabe (senha), algo que você tem (token, celular) e algo que você é (biometria). Segundo a Google, o uso de MFA reduz em mais de 90% as chances de um ataque de phishing ser bem-sucedido. É uma camada simples, mas que redefine o equilíbrio entre usabilidade e segurança. - Biometria e identidade comportamental
Impressões digitais, reconhecimento facial e até padrões de digitação agora compõem a identidade digital moderna. Essas tecnologias permitem uma validação contínua – o sistema sabe que é você não apenas quando faz login, mas enquanto permanece conectado. Empresas como Apple e Microsoft transformaram a biometria em padrão, substituindo senhas por autenticação baseada em hardware, como o Windows Hello e o Face ID. - Monitoramento e inteligência de credenciais
A verdadeira segurança não termina no login. Plataformas avançadas de Identity Threat Detection & Response (ITDR) monitoram credenciais em tempo real e alertam quando senhas são vazadas ou usadas em tentativas suspeitas. Segundo o IBM X-Force Threat Intelligence Index 2024, ataques envolvendo credenciais vazadas cresceram 266% nos últimos dois anos.
Colocar esses três pilares para funcionar muda o jogo, mas não elimina, por si só, os riscos do cotidiano. Entre o desenho da arquitetura e a operação, surgem fricções: ferramentas que não conversam, privilégios que se acumulam e processos que não acompanham a velocidade do negócio. É nesse intervalo que os incidentes nascem e a conta cresce. Na sequência, destrinchamos as dores mais recorrentes que sabotam a identidade, e como encará-las de frente.
O peso invisível da falsa confiança
O maior erro das empresas ainda é confiar demais em soluções isoladas. Muitos executivos acreditam que a adoção de um antivírus robusto ou um firewall atualizado resolve o problema. Mas sem uma estratégia sólida de governança de identidade, todas as outras camadas se tornam frágeis.
Outro ponto crítico é o excesso de permissões — o famoso acesso para todos. Segundo a CyberArk, uma grande parcela das organizações permite que colaboradores acessem sistemas além do necessário. Essa brecha silenciosa é uma bomba-relógio: quanto mais amplo o acesso, maior o impacto de uma eventual invasão.
Por fim, há o fator humano. Em um estudo da LastPass, 65% dos funcionários admitem reutilizar senhas em múltiplos sistemas corporativos. A tecnologia evoluiu, mas o comportamento ainda é o elo mais vulnerável.
Identidade digital como estratégia corporativa
Tratar a identidade digital como uma simples camada de segurança é subestimar seu papel. Ela é o novo perímetro da empresa – o ponto em que o mundo físico encontra o digital. Em um cenário de trabalho híbrido, dispositivos pessoais e múltiplas aplicações em nuvem, o controle de identidade se tornou a base da confiança corporativa.
Grandes empresas já perceberam isso. A Accenture, por exemplo, lidera programas de modernização de IAM com impactos mensuráveis. Em um case público compilado pelo Everest Group, a consolidação de plataformas reduziu 36% do custo operacional de IAM e 40% do tempo de onboarding, além de fortalecer controles de contas privilegiadas. No Brasil, companhias de setores críticos, como finanças e energia, têm adotado o MFA corporativo e a biometria adaptativa como padrão para acesso remoto.
Mas essa mudança não é apenas técnica, é cultural. As organizações precisam entender que a segurança moderna não se faz apenas com controle, mas com consciência. É preciso educar colaboradores, revisar privilégios e criar processos que acompanhem a velocidade da transformação digital.
Confiança é o novo risco
O conceito de confiança está sendo reescrito. No passado, bastava estar “dentro da rede” para ser considerado seguro. Hoje, quem acessa importa mais do que de onde acessa.
A identidade digital é o elo invisível que conecta pessoas, dispositivos e dados – e, se mal gerida, é também a brecha que os separa.
“A verdadeira segurança não é impedir acessos, mas permitir os certos, da forma certa, no momento certo.”
As empresas que compreenderem isso primeiro estarão à frente não apenas na defesa, mas também na confiança, o ativo mais valioso da era digital.
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